Publicado por: TDM | 27 de abril de 2009

Cerne

“Vão, sigam para o sul. Abram uma picada até a vila de Castro passando por aqueles campos da Ventania. E atentem para aquela corredeira traiçoeira – o Cerne, no Rio Tibagi”.

Talvez tenha sido assim a conversa entre os mateiros e o novo administrador da Fazenda São Jerônimo, frei Luís de Cemitle. Em 1859, quando João da Silva Machado, o Barão de Antonina, passa ao governo a posse de sua fazenda, fica a encargo do frei administrá-la. Uma de suas primeiras ordens é a de abrir um caminho partindo de São Jerônimo até Castro. Esta trilha foi a precursora da Estrada do Cerne.

Mas foi somente na década de 1940, por ordem do então interventor do estado Manoel Ribas que se inaugurou oficialmente a Estrada do Cerne. O intuito era econômico, ligar a região cafeeira de Londrina ao litoral paranaense; naquele momento o café produzido no norte do Paraná era escoado através da linha ferroviária para São Paulo.

Há muitos anos esperava por percorrer esta estrada, a PR 090, que hoje liga Curitiba à divisa com São Paulo. Nesta primeira etapa, saímos de Curitiba com destino a Abapã, um pequeno distrito enterrado no cerne da estrada. O governo do Paraná propõe asfaltar toda a rodovia, em uma alternativa a Rodovia do Café, hoje pedagiada.

O asfalto seguiu apenas até o Rio do Cerne, um pouco adiante do distrito de Bateias. De lá foram mais de 100 km de cascalho. A estrada está em boas condições, apesar do grande número de caminhões. A paisagem com certeza é muito diferente daquela vista pelos funcionários do frei Cemitle. A vegetação nativa que cobria as montanhas da região deu lugar ao plantio de Pinus. Também é comum fornos de calcário abandonados, e minas em atividade.

Estrada do Cerne

Sítio junto a Estrada do Cerne. TDM, 2009.

Muitos vilarejos e casas antigas testemunham à estrada. Alguns olham de canto para nós. As mercearias são um charme a parte e sempre um bom ponto de informações. Atravessamos os vales dos rios Açungui e Ribeira e chegamos ao Abapã.

No mapa elaborado pelo geógrafo Reinhard Maack, sobre o itinerário do alemão Ulrich Schmidl, Abapary ou Abapany, aparece como povoado indígena. Em 1552-1553, o alemão utiliza do Caminho de Peabiru e alguns ramais para viajar de Assunção até São Vicente (litoral paulista), passando por Abapã. Não existem índios por lá. Apenas uma larga estrada empoeirada cercada por algumas casas, mercearias e minas de calcário. Existe sim um posto de gasolina; único neste trecho da estrada.

Abapã - Estrda do Cerne

Comunidade de Abapã. Estrada do Cerne. TDM, 2009.

Retornamos alguns quilômetros e seguimos para oeste, com destino a Biscaia. No caminho uma visita a Caverna Olhos d’Água. De Biscaia fomos até a localidade de Passo do Pupo e então para o Cerradinho, em Itaiacoca, o nosso pernoite.

Obs: Não encontrei uma referência clara sobre a origem do nome da estrada; se foi assim batizada em função da corredeira do Rio Tibagi ou do nome do Rio do Cerne.

Referências:

Leão, Ermelino de. Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná. ? ed. Curitiba: Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense. 1994.

Wachovicz, Ruy. História do Paraná. 9 ed. Curitiba: Imprensa Oficial do Estado. 2001.

 

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Responses

  1. Muito lindo o passeio, a estrada é simples, com uma natureza cativante.
    Abraços.

  2. […] “lindas paisagens” ou qualquer coisa assim. Há algumas semanas viajei, novamente, pela Estrada do Cerne, no trecho entre Piraí do Sul e Jataizinho. A estrada do Cerne foi à primeira rodovia oficial a […]


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